BRASILEIROS NÃO FOGEM À LUTA por Eliakim Araújo
Quem disse que a TV americana só fala do Brasil quando é para dar notícia ruim? Pelo menos num segmento muito especial o Brasil é lembrado a todo momento, de maneira positiva, como exportador de um tipo de luta que está alcançando sucesso e já se espalha por várias redes de TV: o vale-tudo.
O vale-tudo teria surgido depois que membros da famíia Gracie emigraram para os Estados Unidos. Mestres no Jiu-Jitsu, os Gracie precisavam mostrar a cara e, principalmente, conquistar alunos para suas academias. Para isso, decidiram desafiar todos os tipos de lutadores, de box, kick-box, karatê, kung fu ...enfim, o que viesse pela frente eles encaravam, e via de regra venciam. As lutas eram de três rounds, com 5 minutos de duração cada um.
Só que a coisa saiu de controle. As lutas deixaram de lado qualquer semelhança com um esporte e se transformaram numa imensa pancadaria, com muito sangue e sem nenhuma regra. Valia tudo mesmo. Os rounds não tinham tempo determinado e a luta só terminava quando um dos lutadores não aguentasse mais. A violência era tanta que as lutas foram banidas da TV. E até proibidas em alguns estados.
As lutas andaram em baixa algum tempo, embora o nome dos Gracie já tivesse conquistado fama. Até que um empresário audacioso, ex-lutador de box, Dana White, resolveu entrar pesado no negócio das lutas. Montou uma estrutura esportiva em Las Vegas e criou várias regras para tornar as lutas menos violentas e, se possível, com menos sangue. Nenhuma TV se arriscou a entrar com ele no negócio e ele teve que bancar do próprio bolso a compra de espaço para transmissão dos combates.
Deu certo, deu tão certo que hoje os espetáculos de vale-tudo estão espalhados por várias redes de TV nos Estados Unidos, repletas de anunciantes. Raro é o dia em que você não encontra o vale-tudo na TV. É verdade que as grandes redes não aderiram a esse tipo de luta, pelo menos por enquanto. O vale-tudo está em redes alternativas ou canais locais, mas roubando cada vez mais audiência das redes e de lutas tradicionais, como o box.
E é aí que entra o nome do Brasil. Seguramente, depois dos americanos, o maior contingente de lutadores estrangeiros a participarem dos combates é o de brasileiros. Geralmente bons lutadores e respeitados exatamente pela fama conseguida pelos pioneiros Gracie. Hoje há várias academias espalhadas pelos Estados Unidos que ensinam o BJJ (Brazilian Jiu Jitsu). Na hora da apresentação dos lutadores, de qualquer nacionalidade, os narradores anunciam sua especialização em BJJ. Ou seja, as artes marciais brasileiras, representadas pelo jiu jitsu da família Gracie viraram produto de exportação e coqueluche de muito garotão americano fortão em busca de fama e dinheiro.
Todo esse retrospecto, caríssimo leitor, foi para contar-lhes que outro dia eu estava assistindo a luta de um brasileiro contra um americano. Na troca de socos, o americano levava nítida vantagem, e o jovem brasileiro, apresentado como Paulo Filho, já tinha graves hematomas e algum sangramento no rosto. Quando a luta foi para o chão, o nosso brasileirinho conseguiu dominar o americano num golpe (desculpe o leitor, a minha ignorância por não saber-lhe o nome) que imobiliza o adversário podendo até quebrar-lhe o braço. E o nosso bravo lutador, mesmo depois de apanhar muito, foi declarado vencedor por submissão.
Veio a entrevista de rotina com o vencedor após o resultado. O repórter pergunta em inglês a Paulo Filho, como ele tinha conseguido suportar tantos golpes até chegar à vitória. E o carioca Paulo, com o intérprete do lado, responde em bom português: " fui criado na dureza, apanhei muito da vida, mas como bom brasileiro não desisto nunca".
Estava com a frase do Paulo na cabeça quando li a entrevista de um outro Paulo, o Paulinho da Viola. Passado o trauma do primeiro momento, quando toda vítima de assalto anuncia que vai deixar a cidade, o querido Paulinho, da viola, da Portela e do Rio Que Passou em Minha Vida, respondeu ao repórter quando este lhe perguntou se pretendia realmente sair do Rio: "não, apesar de tudo, meu lugar é aqui, eu amo essa cidade. Não vou desistir".
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