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A tática do exagero: Brasil x Espanha
Há pouco mais de um mês, 30 brasileiros foram detidos no aeroporto de Madrid. O fato causou uma avalanche de manchetes em jornais de todo o mundo e a crise política fez com que embaixadores e governos se perdessem entre tapas e sopros, ora prometendo cumprir a lei de reciprocidade e intensificar o conflito, ora afirmando que tudo já estava resolvido e dando como terminado o problema. Pára tudo! Desde quando negar a entrada de brasileiros em outros países merece tanta atenção?
Segundo notícia publicada pela BBC Brasil, mais de 20 mil brasileiros foram deportados no ano de 2006. Essa cifra se refere a apenas três países: EUA, Grã-Bretanha e Espanha. O número parece maior quando falamos de estatísticas: 40% dos imigrantes barrados no aeroporto de Madrid no ano passado tinham nacionalidade brasileira. Em 2007, com a questão da imigração na mídia, o número de brasileiros impedidos de entrar em território Espanhol foi ainda maior, chegou a 9,7 mil, o que dá uma média de 26 pessoas por dia.
Imigrante X Votos
Se o problema realmente interessasse aos governos e a mídia, teríamos uma manchete por dia. Mas a questão era outra. Cinco dias depois da “prisão” dos 30 brasileiros em Madrid, se realizaram as eleições gerais espanholas. Os dois políticos que disputavam o cargo de Presidente do Governo competiam voto a voto e o assunto predominante era a imigração. Aproveitando o clima das eleições, a União Européia cobrava dos candidatos políticas mais rígidas que controlassem a entrada de estrangeiros.
O episódio do aeroporto de Barajas, portanto, foi importantíssimo para marcar posição do candidato à reeleição Luis Zapatero. O presidente era acusado pelo candidato opositor de facilitar a entrada de imigrantes e criticado pelos outros países europeus por ter concedido milhares de cidadanias alguns anos atrás. Com a exagerada publicidade do caso dos 30 brasileiros, o governo espanhol (diga-se o candidato à reeleição) mostrou rigidez, derrubou as teorias do adversário político e acalmou a União Européia. O governo brasileiro, por sua vez, entrou de bobo na dança.
Deslocando a atenção
Para o governo espanhol mais valia uma crise com um país subdesenvolvido que perder votos fundamentais em uma eleição confusa e agressiva. Enquanto isso no reino das bananas, os cardeais brasileiros ensaiaram endurecer a fiscalização nos aeroportos, fizeram inúmeras declarações vazias com os olhos cheios d’água e prometeram revanche. Infelizmente, sabemos, não há espaço para vingança. Enquanto os brasileiros se mudam para a Espanha buscando uma vida melhor, os Espanhóis apenas visitam o Brasil e representam fatia importante para o mercado turístico em nosso país.
No final das contas, ninguém joga dinheiro fora. Tanto é assim, que a tal reciprocidade que chegou a ser posta em prática durou alguns dias, inspirou algumas manchetes em jornais e foi devidamente esquecida. Para o governo do presidente Lula, o episódio não deixou de ser interessante. Acossado há tempos com sucessivos escândalos políticos, o presidente e sua equipe puderam respirar um pouco enquanto a atenção dos brasileiros estava voltada para os “arrogantes” espanhóis.
A conta, por favor
Um mês depois do incidente diplomático, o então candidato espanhol a reeleição conseguiu manter-se como presidente. Ao mesmo tempo em que foi divulgado um estudo que afirma que a Espanha precisará de 150 mil imigrantes por ano para manter o crescimento econômico. Na terra do rei Juan Carlos, portanto, a vida voltou ao normal. Os imigrantes ora entram com facilidade, ora são barrados sem motivos concretos e ninguém chia.
No Brasil já não se fala mais no assunto. O governo federal, como é rotina, tem meia dúzia de escândalos para resolver e a população está mais preocupada em ficar distante da dengue, das balas perdidas e do trânsito caótico. Assim ficamos até que alguém precise de uma nova crise. E não vai demorar muito, tenho o palpite de que teremos algumas neste ano de eleições municipais, mas é só um palpite...
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