"Entre nós, o Atlântico e a História" por Bruno Seixas
Outro dia estava discutindo imigração com alguns espanhóis. Eles reclamavam do número excessivo de imigrantes, da difícil adaptação do estrangeiro aos costumes locais e do aumento da violência. Na hora de responder, tinha uma idéia do que falar, mas não tinha os números para comprovar, por isso, prometi uma resposta para o dia seguinte. Pois bem, ao chegar a casa, fui ao Google e busquei informações sobre a nossa história, a história brasileira. A resposta que daria aos espanhóis, italianos, alemães estava no nosso passado recente e seria definitiva, pelo menos quando a discussão envolvesse os imigrantes brasileiros..
Imigração Europa x Brasil
Nos final do século XIX, com o fim da escravidão, o Brasil precisava urgentemente de mão de obra para as plantações de café. Enquanto isso, a Europa era castigada por guerras. No meio destes acontecimentos, quase dois milhões de europeus imigraram para o Brasil. Italianos (um milhão), suíços, espanhóis (225 mil), portugueses (360 mil) e alemães (84 mil) desembarcaram em nosso país querendo uma vida melhor, buscando emprego, abrindo negócios e se mantendo a uma distância segura das guerras européias.
No século XX, a entrada de europeus no Brasil continuou alta até os anos 30. As plantações de café ainda precisavam de gente e as primeiras fábricas brasileiras ofereciam oportunidades para aqueles que se aventurassem em nossas terras. Repetindo o ciclo, a Europa continuava em guerra e quase o mesmo número da onda de imigrantes anterior chegou ao Brasil. Entre eles um milhão de portugueses, 133 mil alemães, 465 mil espanhóis e 474 mil italianos. Nesta época, os europeus eram maioria nos postos de trabalho criados na indústria brasileira e as cidades alemãs do sul do Brasil se fechavam à cultura local, mantendo toda a tradição européia intocada.
Imigração Brasil x Europa
A onda de migração de brasileiros para a Europa começou na década de 80. Segundo estudo da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas) o emigrante brasileiro é de classe media baixa, jovem e, quando explodiu a onda de migração, a maioria era do sexo masculino. A pesquisa também informa que a Europa é, geralmente, a segunda opção para quem quer sair do Brasil (os EEUU é a primeira). O fluxo para o velho continente aumentou depois de implementadas as novas políticas de segurança em território americano após os atentados terroristas.
Sem estimar sobre os imigrantes ilegais, os números oficiais indicam que mais de 350 mil brasileiros vivem em território europeu, com maior concentração em Portugal e Itália. Além da busca por oportunidades de trabalho ou para melhorar a formação acadêmica, o brasileiro faz parte da “migração de retorno”. Isto é, os descendentes dos europeus que foram para o Brasil no século passado voltando às origens. No final das contas, o fluxo de imigrantes que chegou ao Brasil para colher os grãos de café das plantações paulistas está se invertendo. Agora, somos nós que estamos chegando ao velho continente, mesmo que seja para lavar pratos.
A perda de poder da Máfia Italiana através da Operação Mãos limpas vem provar que o crime organizado só pode ser combatido com uma ação conjunta entre estado e sociedade. Um combate efetivo que penetre nas entranhas do poder e alcance os verdadeiros mandantes das ações criminosas.
No final, tudo ao começo
No dia seguinte, encontrei com os espanhóis e dei minha resposta. Alguns ficaram sem graça, outros um pouco irritados alegando que os processos de emigração européia e brasileira não podem ser comparados. Mas quando a cerveja acabou ríamos de como o mundo dá voltas e que no final das contas somos todos do mesmo sangue. Só deixei um detalhe guardado no meu bolso: em 1930, o governo brasileiro, do então presidente Getúlio Vargas, criou a Lei das Cotas que dificultava a entrada de imigrantes europeus em território brasileiro para garantir trabalho aos brazucas genuínos. Setenta e oito anos depois, os governos europeus discutem e fortalecem leis que fazem o mesmo conosco. O mundo realmente dá voltas.
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