Escolha sua Crise, a de Pequim ou de Wall Street
por Rui Martins
Berna (Suiça) - Pode-se escolher qual crise se irá acompanhar nos próximos meses. Uma nos Estados Unidos, outra na China. Ambas vão se expandir e envolver todo o planeta. A crise americana, que será mundial, atacará os meios financeiros principalmente, mas terá repercussões na vida de todos nós cidadãos anônimos.
A crise chinesa vai envolver primeiro o mundo político, a seguir o mundo esportivo, mas terá uma importante componente econômica. Da primeira, ninguém vai escapar porque haverá reflexos diversos e poderá mesmo repercutir no custo de vida. A segunda, ninguém poderá evitar, porque acabará por exigir de cada um de nós uma definição sobre direitos humanos.
Geração privilegiada, teremos a chance de viver duas crises, quase simultâneas, no país que durante um século comandou o mundo e no país que, até o fim deste século, poderá ocupar o lugar deixado vago pelos Estados Unidos.
Será conversa de cartomante, de vidente sem diploma, ou previsão para ser levada a sério ?
Nos EUA, a crise bancária desencadeada pela cupidez dos bancos desejosos de ganhar 20% de lucros no mercado hipotecário, mas de alto risco, poderá provocar a falência de muitos bancos. Por enquanto, as autoridades monetárias e financeiras americanas estão segurando o rojão, mas a crise dos subprimes esconde outra crise se aproximando – a dos cartões de créditos.
A quase totalidade dos americanos vive acima de suas posses, utilizando cartões de crédito, pagando os créditos de um cartão com outros, se amarrando em dívidas a altos juros. Assim, como estourou a crise dos créditos hipotecários quando os proprietários não puderam mais pagar as prestações de suas casas, adquiridas com créditos fáceis e não viáveis, a crise dos cartões de créditos está só esperando começar o dominó das falências pessoais – os milhões de pessoas que não terão com o que pagar suas dívidas acumuladas. E tudo indica que o sinal da partida, que vai provocar a recessão, está por pouco.
Dizem também que as empresas de seguros estão á beira da falência e não poderão fazer face aos compromissos. O dólar já não vale nem um franco suíço e um euro compra mais de dolar e meio. Na Europa, ninguém mais quer ser pago em dólar e as empresas européias estão fechando seus negócios em euros. Depois de Bush, o dilúvio.
Quando ainda jovem repórter, lembro-me de uma entrevista com o historiador inglês Arnold Toynbee, em São Paulo, para o Estadão. Era a época da chamada revolução cultural chinesa e os excessos que se cometiam levantavam os temores de uma China sem controle. Mas Toynbee era otimista – a China é uma civilização milenar e saberá evitar esse risco.
Palavra de historiador confirmada alguns anos depois. A revolução cultural com seus excessos contados pelo premio Nobel de literatura, Gao Zingjian, no seu Livro de um Homem Só, em muito parecido com uma versão chinesa de George Orwell, acabou.
E a China, com sua mistura marxista-capitalista, se tornou o país mais cobiçado pelos governos e empresas ocidentais pelo seu enorme mercado potencial. Franceses, alemães, americanos todos chegaram à China esperando tirar uma boa casquinha, decididos a mostrar confiança numa China pronta a menos autoritarismo, em troca de bons negócios. Os Jogos Olímpicos de Pequim enquadraram-se nessa troca de favores e interesses.
Há um ponto em que a crise americana se cruza com a chinesa – os chineses investiram nos EUA e se decidissem vender no mesmo dia todos seus dólares levariam os americanos à ruína. Mas não farão isso, porque eles também perderiam.
Por sua vez, os países ocidentais já investiram demais na China e serão os maiores defensores do governo chinês, se as repressões aos tibetanos levantarem um movimento internacional de boicote aos Jogos Olímpicos.
Exemplo típico, o ministro francês Bernard Kouchner das relações exteriores, criador da teoria da intervenção humanitária, já se declarou contra um boicote aos Jogos, medida levantada pela candidata socialista derrotada nas presidenciais, Segolène Royal. O Comitê Olímpico Internacional, cujo passado não é muito chegado em direitos humanos, afasta qualquer idéia de boicote. E pode-se entender - os meios financeiros internacionais apostaram na premissa de que o desenvolvimento econômico da China levaria a uma liberalização política.
De um lado crise financeira americana com vocação mundial, do outro os monges budistas que, cansados da posição de lótus e de murmurar a palavra sânscrita sagrada “om” com os braços em frente ao peito e o indicador colado no polegar, poderão roubar a cena dos atletas nestes cinco meses.
por RUI MARTINS
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