A EXPECTATIVA
Eram 3 da tarde de Quinta feira, 11 de Fevereiro de 2010 quando meu celular tocou, e ao ver o nome “Alex Martins” (vulgo “Blau”) no display, senti um frio na espinha… Era a tão esperada confirmação que o famoso campeonato de ondas grandes em Mavericks (Half Moon Bay, norte da Califórnia) iria acontecer no sábado, dia 13 de Fevereiro.
Combinei com o Alex de irmos juntos para a reunião do campeonato na sexta à noite, noite anterior ao evento.
Estar próximo à um atleta que arrisca sua vida em um evento como esse, e ter a oportunidade de testemunhar sua tensão e crescente adrenalina nos momentos que antecedem a competição, é uma experiência única e intensa.
Antes de me aprofundar na descrição dos fatos do evento em si, vamos conhecer melhor o personagem principal dessa história - Alex Martins (também conhecido como “Blau”, pelos amigos), surfista brasileiro de ondas grandes, residente em San Francisco na Califórnia.
Alex é natural de Pernambuco, foi surfista profissional no Brasil e mudou-se para os Estados Unidos no dia 15 de Setembro de 1993. Desde que chegou à San Francisco, fixou residência em Ocean Beach, praia que tem uma das melhores ondas da Califórnia. Com o passar dos anos, Alex conquistou a admiração dos surfistas locais e hoje é considerado o “melhor do pico” (o melhor surfista da praia). O jeito simples, amigável e sincero, sua coragem e a qualidade de seu surf, fizeram com que Alex conquistasse o respeito de todos os grandes nomes no meio do surf no norte da Califónia, mais especificamente em Ocean Beach e Mavericks.
Sexta-feira, 12 de Fevereiro de 2010
- 6:45 pm
Chegamos à reunião em Half Moon Bay. Todos os surfistas estavam presentes, bem como os organizadores do evento e a imprensa. A reunião dos surfistas foi à “portas fechadas”, e sem a presença da imprensa. Terminada a reunião dos surfistas, Alex deu algumas entrevistas para um dos canais de TV locais da Bay Area, e conheceu as videomakers da UC Berkeley Nina e Vanessa, que vieram especialmente para fazer um vídeo documentário sobre o Alex (O “Underdog” de Mavericks).
Voltamos dirigindo de volta para a casa do Alex, e no caminho de volta, durante o bate-papo, pude sentir sua adrenalina e ansiedade aumentarem. Perguntei então ao Alex - Qual foi a lição aprendida na última vez que você competiu em Mavericks (2006), e o que você faria diferente dessa vez?
A resposta foi rápida e direta - Pegar só as maiores! Não desperdiçar tempo nem energia com as ondas menores.
Sábado, 13 de Fevereiro de 2010 - DIA DO CAMPEONATO
- 5am
Chegou a hora! Acordamos de madrugada para nos preparar e partir rumo ao local do campeonato, em Half Moon Bay. A Sarah já estava na cozinha preparando a “super vitamina”, a única nutrição do Alex antes do campeonato. Acabei tomando um copo da “poção”, e pude constatar que a coisa é forte mesmo!
Pouco depois, chegaram a casa do Alex mais dois amigos, que iriam conosco para Mavericks; o Henrique “Thiolinha” e o Frank. Partimos então para Mavericks na van do Alex, que estava carregada de pranchas que eles levaria para o campeonato.
Ainda era noite quando paramos a van no estacionamento exclusivo dos surfistas, em Mavericks. As videomakers da UC Berkeley já estavam lá de camera na mão, prontas para começar a gravar o documentário! A operação de desembarque do equipamento do Alex foi acompanhado pelo “olhar eletrônico” das videomakers, que filmavam atentamente cada movimento do Alex e sua equipe de apoio.
Os outros competidores foram chegando, e o estacionamento lotou rapidamente. Os primeiros espectadores também começaram a chegar juntamente com o sol do amanhecer, cujos raios de luz laranja-avermelhados começaram a despontar e colorir o céu, refletindo no mar e produzindo uma obra de arte da natureza. Era como se Deus estivesse botando uma “marca” nesse dia especial, prenunciando o show que estava para acontecer em algumas horas - o espectáculo inusitado do homem desafiando o mar.
Logo ao chegar perto do mar, pude avistar a distância a estrutura montada para comentaristas e câmeras, que iriam fazer a transmissão via internet do evento (webcasting).
Todos os ingredientes para um campeonato fantástico estavam presentes - um dia ensolarado, ondas com até 60 pés, surfistas ansiosos e uma animada platéia.
Feito o sorteio das baterias, Alex Martins ficou na terceira bateria e Carlos Burle ficou na quinta. Um terceiro brasileiro, Danilo Couto, ficou de fora mas seria o primeiro surfista substituto a entrar, caso algum dos 24 surfistas selecionados não pudessem competir.
O clima era eletrizante quando os surfistas da primeira bateria se dirigiram para a pequena praia que dava acesso ao mar, para dar início ao campeonato. Para se chegar a pequena praia, os surfistas tinham que passar no meio dos fãs, e este momento foi muito especial tanto para a platéia quanto para os atletas. Os fãs incentivavam cada atleta durante sua caminhada heróica para o mar - como as antigas platéias romanas, que incetivavam os gladiadores ao entrarem na arena de batalha.
Tento imaginar o que o Alex estava sentindo naquele momento, mas só ele poderia descrever essa sensação. Por estar próximo a ele, pude notar o carinho e admiração que ele ia recebendo de outros surfistas, admiradores e sobretudo do nosso grupo de amigos bazucas, que aumentou bastante desde nossa chegada de madrugada. E a galera brasileira marcou grande presença, como sempre!
A HORA DA VERDADE - COMEÇA O CAMPEONATO
Chegou o tão esperado momento por Alex, para finalmente entrar e “exorcizar” a lembranças do campeonato de 2006. Eu estava junto ao “Blau” no momento em que ele iniciou o ”ritual sagrado” da colocação da roupa de borracha e colocação de parafina na prancha. Frank, que ficaria dentro do mar com a prancha reserva do Alex, também se preparava ao mesmo tempo para entrar junto.
A caminhada do meu amigo e “gladiador do mar” para a praia foi emocionante. Ele partiu com sua serenidade habitual e pude ouvir muitas vozes, com sotaque americano gritando seu nome, e dando seu incetivo - Go Alex! Emoção e apreensão se confundiam naquele momento.
Blau não brincou em serviço e desceu a primeira onda da bateria, uma “muralha” de 60 pés. Alex remou forte, desceu o paredão da crista até a base e caiu, sendo engolido pela enorme massa de agua, para explosão da galera (e apreensão dos amigos). Alex desceu mais três ondas muito boas e terminou em primeiro lugar na bateria, se classificando para as semi-finais pela primeira vez! Vale mencionar que este resultado já garantiu sua participação na edição 2011 do campeonato!
Burle arrebentou na quinta bateria e também se classificou para as semifinais.
No intervalo antes das semifinais, os surfistas puderam descansar e recuperar um pouco de energia gasta até então. Burle recebeu massagem de Sandro Britz, massagista brasileiro que mora em San Francisco e que também faz parte da galera brazuca que estava presente ao evento.
Alex e Burle estavam juntos na primeira semifinal, juntamente com Kenny Skindog, Chris Burtish, Grant Washburn, e Ryan Seelbach. Os dois brasileiros caminharam lado a lado em direção ao mar, para a próxima batalha. Vale mencionar que Carlos Burle é reconhecidamente um dos melhores surfistas de onda grande do mundo; uma “lenda viva” do esporte. Foi emocionante ver o carinho da platéia quando os dois surfistas brasileiros caminharam lado a lado pela praia em direção ao mar. Eles foram literalmente ovacionados pelo público!
O mar continuava grande quando a bateria começou. Burle desceu uma bomba, e outra logo depois. Alex desceu duas bombas enormes, mas a bateria estava bastante equilibrada. Os demais competidores também estavam arrebentando. O resultado final da primeira semifinal classificou Burle, Kenny Skindog e Chris Burtish para a bateria da final, que decidiria o campeão. Alex não passou…
Ter chegado a semifinal representou duas vitórias pessoais para o Alex - ter superado sua performance em 2006, e ter encontrado a estratégia certa para esse tipo de competição. Seu prêmio - ter garantido sua participação no “Mavericks 2011”.
A galera bazuca deu aquela “murchada” pelo Alex não ter passado para a final, sobretudo os amigos mais próximos. Mas o astral logo subiu de novo, pois agora a galera tinha que concentrar as energias e torcer forte para o Burle ser campeão.
No intervalo antes da final, perguntei a Burle qual seria sua estratégia para vencer e ele falou que a escolha da melhor onda seria crucial, pois depois de duas baterias, o cansaço já estava começando a bater. Ele também mencionou que levar uma “vacas” na bateria da final poderia ser fatal.
Os seis surfistas clasificados para a grande final foram: Carlos Burle, Anthony Tashnick, Shane Desmond, Chris Bertish, Kenny Skindog and Dave Wassel.
O Alex decidiu assistir sentado na garupa de um jet sky, pertinho
das ondas.
A final começou e as ondas pareciam ter aumentado de tamanho ainda mais! A bateria final foi emocionante, com Burle e Chris Bertish se destacando dos demais surfistas. Burle desceu várias bombas e todos que assistiram de dentro dágua, já o consideravam o campeão. Mas para surpresa geral, Burle ficou em quinto lugar quando o resultado oficial foi anunciado no telão…
O resultado gerou muita controvérsia, pois afinal Burle pegou as maiores ondas da final. Como explicar esse resultado? Ouvi diversos comentários de surfistas, fotógrafos e imprensa especializada. Uns mencionaram o fato de a banca julgadora ficar na areia, muito longe das ondas, e dependendendo únicamente das imagens da transmissão para darem suas notas. Desta forma, só quem esta aparecendo nas câmeras pode ser julgado - ou seja - quem não for filmado… dançou. Outros disseram que o critério de julgamento não valorizou tanto a descida da “parede” da onda, em relação a manobras feitas no trajeto da onda, que normalmente não valeriam tantos pontos nesse tipo de competição.
Após o final do campeonato, fomos para a festa preparada para a premiação dos vencedores. Muita comida para saciar a fome dos gladiadores do mar, e cerveja para relaxar a galera, depois de mais um memorável e inesquecível campeonato em Mavericks.
Como já é tradição, a galera Brazuca invadiu a festa, plantou a bandeira verde e amarela, animou geral e provou mais uma vez que nós seremos sempre os torcedores campeões da alegria, de qualquer esporte, em qualquer estádio, em qualquer lugar do mundo.