Próxima parada: Barcelona por Bruno Seixas
Quem chega à Espanha dá de cara com um grande canteiro de obras. O país, que é a oitava economia do mundo, está na corrida para se aproximar ainda mais dos parceiros da União Européia. Com todo este esforço, os imigrantes são muito bem-vindos. Segundo dados de 2005, os imigrantes representam 8,34% de toda a população espanhola. Em números concretos, são mais de 3 milhões de estrangeiros vivendo, trabalhando e estudando em solo espanhol. Como não poderia ser diferente, os brasileiros marcam presença e são mais de 50 mil nos números oficiais. Entretanto, é só dar uma voltinha para descobrir uma porção de conterrâneos trabalhando duro, mas “sin papeles”.
Uma das grandes surpresas acontece ali mesmo no aeroporto. Quem viaja com o velho e bom passaporte verde sabe como é difícil passar pelos temidos guichês da imigração. Diferente de países como Inglaterra, França e EEUU, o viajante não gasta mais de dois minutos com o guardinha espanhol. É o tempo que ele leva para conferir a foto e ter certeza de que é você mesmo, carimbar e dizer: “pasáte”. Muita gente não acredita e volta para perguntar se não faltou nada, nenhuma pergunta ou revista. Aquele monte de papel com endereço de amigos e telefones de contatos que salvaram em Londres não serve pra nada na terra do Rei Juan Carlos.
Encarando a cidade de Barcelona, a primeira coisa que você escuta é um brasileiro gritando do outro lado da rua. A sério, a Espanha é muito parecida com o Brasil. Todo mundo reclama dos políticos, os jornais estampam fotos de hospitais públicos lotados, as empresas de transporte não descobriram como é útil comprar relógios e, ainda por cima, tem um monte de brasileiros marcando gols e fazendo a alegria dos espanhóis. A grande diferença é a pouca violência. Mesmo assim, os índices estão crescendo e, infelizmente, os dados acusam os imigrantes de serem os antagonistas desta história. Neste caso, porém, os brasileiros têm pouco a ver, mas levam algum respingo.
Para completar, existem as velhas rixas entre regiões. Seria como um Rio contra São Paulo, ou Rio Grande do Sul contra o resto do Brasil. Na Espanha, são todos contra a capital, Madrid. Em Barcelona, quem torce pelo Real Madrid corre sérios riscos de vida. Aqui, o Barça é religião, portanto para falar de outro clube é melhor baixar o tom da voz. No quesito comunicação, o catalão está para o brasileiro, assim como o aramaico está para os ingleses. O catalão é a língua oficial deles e por motivos históricos não há nada que os faça falar outra língua. O castelhano é aceito depois de cinco ou seis tentativas. No entanto, quando você menos espera o catalão volta para atormentar.
Já sabendo diferenciar o catalão do castelhano, é hora de procurar um lugar para dormir. Diferente de Londres, onde é normal o aluguel de vagas e quartos, em Barcelona o lance é buscar apartamentos mesmo. Para não ficar caro, o melhor é procurar outros imigrantes para alugar uma quentinha e aconchegante quitinete. Mesmo com a turma reunida, não é fácil fechar um contrato. Para ter o sonhado quartinho é preciso trabalhar, mas para trabalhar é preciso ter um endereço. Ó vida, ó céus. Depois de conversar com duzentos corretores e ter onde dormir, voltamos à rua para procurar um emprego!
Neste ponto da aventura, várias histórias de brasileiros chegam aos nossos ouvidos. Alguns felizes, outros querendo ir embora, os brazucas dominam os empregos de base, isto é, cozinhas, restaurantes, hotéis etc. Fora essas opções, é preciso falar e bem o catalão, sem ele não tem conversa, literalmente. Conversa daqui, conversa de lá, não é muito difícil arrumar alguma coisa. Se não tem documentos, sempre existe uma alma caridosa que vai ajudar, é só questão de arrumar os tão cobiçados contatos. Complicado é encaixar os horários do trabalho com os estudos.
E estudar é o objetivo de muitos estrangeiros que se aventuram por aqui. Só para brasileiros, foram registrados mais de dois mil vistos de estudo em 2006. A procura tem um porquê. Os preços dos cursos são mais baixos comparados aos outros países europeus e a língua – quando os professores falam em castelhano – por ser bem parecida, ajuda na compreensão das aulas. Mestrados, doutorados e cursos de especialização dão água na boca de quem quer melhorar o currículo e aprender mais. Geralmente, não há problemas na hora de se matricular. As universidades espanholas já estão acostumadas com os “de fora” e querem mais é que você pague logo. Portanto, o castelhano gaguejado que você usou na entrevista não vai ser nenhum problema.
Tudo pronto: casa alugada, amigos prontos para uma noitada, dinheiro entrando e muitos trabalhos para entregar no curso. Então nos sobra o imenso prazer de relaxar. Para isso, nada melhor que degustar uma boa paella (arroz com frutos do mar e/ou carnes) e uma jarra de sangria (groselha espanhola, brincadeira, na verdade, vinho com frutas). Mas não se esqueça, se você não gostar do Gaudí – aquele arquiteto catalão que começou a construir a Sagrada Família – não fale muito alto. Assim como o Barça, ele também é religião. E religião não se discute, ainda mais se for em catalão.
|