"Respeito"
por Deborah Leite
De repente me dei conta de que todos os problemas do mundo poderiam ser resolvidos com apenas um ato: respeito.
A base da vida está fundamentada sobre ele. Ela só acontece por que há respeito entre as células que esperam o momento certo para fecundar. Respeitam o ritmo do óvulo e esperam a hora de se aproximar sem que a presença dela seja invasiva, e sim, aceita.
Aceitar as diferenças é parte fundamental dele. Em um mundo que ser igual é exigido, onde ser normal é ser magro, bonito, bem sucedido, ai de quem foge ou não se enquadra na tal normalidade. O indivíduo deu lugar à massa. O ser diferente, à marginalidade e ao escárnio. A massa passou a ditar o “certo” onde trair e roubar é “normal” e ser honesto é virtude. A imagem, a forma, a superfície, o externo e o ego são grandes reis e rainhas que, falsamente, pregam a liberdade. Escravos da opinião dos outros, chegamos a nos perder entre o certo e o errado. O fácil tomou o lugar da descoberta e do desafio para encurtar o caminho nos atalhos sedutores que aparecem, muitas vezes, de maneira irrecusável. Traiçoeiros, não tardam a mostrar suas altas contas e suas seqüelas. Pobres os que encantam por eles: os terríveis atalhos.
Inundados por crenças que nos levam, freqüentemente, ao erro e à repetição do mesmo erro;somos educados a pensar que pequenos crimes compensam. Quando pequenos, por exemplo, custamos ouvir que mentir é feio. No entanto, quantas vezes não vimos nossos pais mentirem? Contradições e tradições esquisitas nos constroem para a vida, até o dia que nos conscientizamos de que é preciso desconstruir para reconstruir um ser melhor. O processo terapêutico a quem se entrega e acredita, ajuda nessa reconstrução. Adultos, percebemos o quanto nossos pais, até por não saberem outra forma, erraram em nome do “amor”. Em nome deste falso amor, não nos deixaram ser quem realmente sempre fomos. Nos impuseram um modo de sentar, de rir, de pensar, de estudar e até de ser. Em nome do “amor”, mexeram nas nossas coisas, vigiaram nossos passos, nossos namoros, nossos sentimentos. Quiseram nos dizer o que escolher, com quem nos relacionar, ditando quem servia e quem não servia. Em nome do “amor”, nos super protegeram e ao invés de nos ajudar andar sozinhos, nos amputaram a vontade, a curiosidade e o pior, a nossa coragem. Onde estava o respeito? Onde está ele agora?
Respeitar é aceitar o diferente. É saber que o seu espaço termina exatamente na medida tênue de onde começa o do outro. Respeitar é saber que o outro tem a sua individualidade. É saber que o outro embora profundamente diferente de você, é excepcionalmente igual nos sentidos mais básicos e complexos do ser. É compreender que cada um está em um nível de evolução e de entendimento e que o outro não precisa e nem deve ter o mesmo entendimento que você. É saber que gostos, desejos, sonhos e vontades são patrimônios únicos e exclusivos de cada ser. É saber que mesmo casados há 50 anos, cada um tem o seu espaço, o desejo de estar só, suas fantasias secretas e suas histórias individuais de vida. Respeitar é, sobretudo, querer o bem do outro, seja ele branco, baixo, gordo, asiático, judeu ou mulçumano. É compreender que não importa a escolha dele, respeitar é deixar o outro ser livre. É não negar o inerente ao ser humano. Respeito é sentimento e atitude de sábios, tolos não conseguem respeitar, pois em sua tolice se julgam melhor que os outros e por isso, pensam poder dominar. Respeitar é, acima de tudo, amar. Por que amar sem respeito não é amor, é tirania. Respeito é tão nobre, divino e inspirador que Deus em sua magnitude e amor infinito, nos deu a todos, num ato de respeito mor, o livre arbítrio: o direito de sermos tudo e qualquer coisa que quisermos ser. Cabe a nós, e apenas a cada um de nós, escolher, pois tudo posso, mas nem tudo me convém.
por Deborah Leite
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