Top-less e moicanos, as modas do velho continente.
Quando pensamos numa sociedade diferente, sempre citamos aquelas que conhecemos pouco. Se existisse uma pesquisa entre brasileiros para descobrir qual o continente mais exótico, provavelmente a Ásia sairia na frente. Não precisamos ir tão longe. A Europa, continente que nos guiava quando capotamos, apresenta uma sucessão de surpresas culturais que deixaria o mais liberal envergonhado.
Na praia, por exemplo: trocar de roupa nas areias da Praia do Forte pode ser normal entre crianças, mas nunca entre adolescentes, casais comportados ou, ate mesmo, grupos animados da terceira idade. Em Barcelona, ou nas praias próximas a Londres, é normal homens e mulheres irem a praia vestidos (calca, tênis, blusa social) e trocarem-se a vista de todos. Alguns ainda seguram a toalha, outros não estão nem ai.
A moda praia, por exemplo, fica, quase sempre, restrita a parte debaixo do biquíni. E não estou falando de adolescentes ou jovens senhoras de corpos malhados. Não há regras, quem se sente a vontade faz top-less. E quase todo mundo faz. Da magrinha a mais cheinha; da teen a respeitável senhora do 708. Os seios a mostra é tão fashion como o biquíni de bolinhas foi algumas décadas atrás.
Para o top-less, entretanto, há uma explicação. Diferente dos brasileiros, os europeus não gostam muito da marca do biquíni. Não é possível saber o que veio antes, o gosto dos europeus ou a liberdade do top-less, mas um completa o outro e faz com que o habito se perpetue e tome conta das areias do velho continente.
Em Barcelona há liberdade, mas em Londres há fantásticos surtos anárquicos. A moda londrina entre os jovens se define por “quanto mais chocante, mais fashion”. Aproveitando o frio, a garotada bota roupa sobre roupa e com as cores mais berrantes possíveis. Exemplo: uma calca jeans rasgada é normal, mas quando se coloca uma bermuda verde abacate sobre ela, a coisa começa a parecer Londres.
E a moda não está só nas roupas. Tatuagens e piercings fazem a cabeça da rapaziada. É claro que estamos falando sempre no plural. Dizem que quando se faz uma tatuagem não se consegue parar, essa regra também vale para as argolas de metal. A premissa é a mesma das roupas coloridas, quanto mais louco, quanto mais chocante, melhor. Os índios das Américas ficariam invejados se vissem o que se faz por aqui com lábios, orelhas, peitos....
Os mesmos índios se sentiriam em casa com os cortes de cabelo. É impossível conseguir um corte normal num cabeleireiro. Não existe linha reta para uma franja e a tesoura que usam não corta, desfia. Para entrar na onda e facilitar o trabalho, é mais fácil pedir um moicano tricolor, ou – seguindo a moda dos monges asiáticos – raspar tudo e deixar um rabo de cavalo finíssimo sobre as costas.
Quando brasileiras namoram europeus, a crise de culturas é certa. O espanhol, por exemplo, não gosta de sapatos plataforma. Para eles é uma acessório de “baixo nível”, mas apropriados para “mulheres de vida”. Por outro lado, as brasileiras não suportam as combinações bregas deles. Uma mineira contou que depois de um ano de namoro, ainda estava tentando jogar fora os sapatos brancos do namorado ou pelo menos se esforçando para que ele não combinasse os tais sapatos com um chapéu de cowboy preto com um laço branco.
Essa anarquia cultural é resultado da filosofia de que “se não é comigo, se não encosta em mim, então não tenho nada com isso”. Por isso, é tão normal que pessoas troquem de roupa na praia, que senhoras façam top-less, que a garotada coloque mais e mais tatuagens e cores no cabelo e que ate o espanhol combine sapatos brancos com um chapéu de cowboy. Ninguém se sente agredido, ninguém olha. É simples e obvio. Aqui, o respeito pelo próximo se aproxima da indiferença.